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Professor da Eng. de Transportes discute mobilidade no Brasil

Mon Jun 19 08:43:00 BRT 2017

 “A busca por eficiência é saudável e traz benefícios para o usuário, que é o foco do serviço, não o serviço em si", Guilherme Leiva

 

Concorrência no mercado de transporte privado, carro próprio e tarifação de transporte público. Esses são alguns dos assuntos que têm gerado repercussão atualmente, especialmente na era de aplicativos de transporte particular, como Uber, Cabify, 99...

Para discutir sobre essas temáticas e traçar um painel da mobilidade urbana no Brasil sob diversas perspectivas, entrevistamos o professor de Engenharia de Transportes do CEFET-MG em Belo Horizonte Guilherme Leiva, que é Doutor em Demografia pela Universidade Federal de Minas Gerais (UFMG) e pós-doutorando em Engenharia de Transportes pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Com experiência na área de urbanismo, desenvolve pesquisas nas áreas de política e planejamento de transportes.

1- Uma pesquisa realizada pela Confederação Nacional do Transporte, em 2015, revelou que 94,9% dos taxistas perceberam uma diminuição da procura por esse serviço. O que justificaria essa queda?

Isso provavelmente é consequência da situação econômica e política brasileira. No transporte coletivo por ônibus, ocorreu, somente entre 2016 e 2017, uma queda de aproximadamente 15% do número de usuários.
 

2- Há, atualmente, vasta oferta de transporte particular em aplicativos (Uber, Cabify, 99, só para citar alguns). Eles disputam entre si para ver quem é mais eficiente e quem consegue fidelizar o cliente. Também concorrem, ao mesmo tempo, com o transporte coletivo e a cultura brasileira de se ter o próprio veículo. Em termos de eficiência e economia, quais são as melhores alternativas para o cliente final?

O transporte coletivo sempre é a melhor opção para o indivíduo e para a sociedade. A escolha com menor rendimento é o transporte individual, que possui uma série de custos que não são considerados pelo proprietário no cálculo final, como manutenção, impostos, etc. Com relação às modalidades táxi e seus derivados (Uber, etc.), a busca por eficiência é saudável e traz benefícios para o usuário, que é o foco do serviço, não o serviço em si. Hoje se percebe que há um equilíbrio na qualidade e na economia da prestação do serviço.


3 - Foi aprovado na Câmara dos Deputados, em 2016, o Projeto de Lei 5.587, que determina que serviços de transporte individual por aplicativo, como Uber e Cabify, não poderão funcionar sem regulamentação municipal. Agora, o texto será analisado pelo Senado. Quais são os principais argumentos favoráveis e contrários ligados a essa regulamentação?

Desconheço o texto em sua íntegra, mas acredito que deve haver algum tipo de controle por parte do órgão municipal (responsável pela mobilidade urbana), uma vez que todos os serviços compõem o sistema de transporte dos municípios. Somente fica a dúvida sobre a forma de controle, pois acredito que as formas convencionais, como a autorização, não é a mais adequada para controlar novas formas de prestação de serviço, em especial aquelas cujo suporte é a tecnologia.

4 - De junho a julho de 2015, 163.226 novos carros foram adquiridos pelos brasileiros, segundo o Departamento Nacional de Trânsito (Denatran). Isso seria o equivalente a 5.441 caros por dia no país. Em termos fiscais, por que há tanto incentivo à aquisição do carro próprio?

Há uma matriz econômica e industrial brasileira em que a indústria automobilística é representativa. Além disso, a cultura do automóvel ainda é muito forte, o que retira a fundamental prioridade devida ao transporte público. Esses aspectos orientam ao incentivo à produção e compra do veículo particular.

5 - A Organização Mundial da Saúde (OMS) afirmou que a questão do transporte coletivo é também uma questão de saúde pública, uma vez que um transporte eficiente diminuiria o número de carros nas cidades, diminuindo também os índices de poluição, acidentes, inatividade física. Entretanto, no Brasil, o transporte coletivo, entre 2000 e 2012, subiu bem acima da inflação. O que justifica essa contradição e quais seriam as alternativas viáveis para incentivar o uso do transporte público no país?

Há a necessidade de repensar o financiamento da mobilidade urbana. Um sistema em que o usuário é responsável por 100% do custo não distribui de forma equilibrada os benefícios do transporte coletivo. O transporte coletivo deve ser financiado por toda sociedade, pois toda ela se beneficia de um bom sistema. Enquanto não mudarmos essa filosofia, qualquer tipo de mudança na oferta e demanda do sistema será transferida diretamente para o usuário e, consequentemente, no valor da tarifa.

 

Secretaria de Comunicação Social/CEFET-MG

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